Deixando de lado
todas as polêmicas pessoais da vida do diretor Roman Polanski (o mesmo de "Chinatown"
e "O Pianista"), é criado “O Deus da carnificina”, uma comédia
negra de altíssimo nível dramático sobre as aparências e seus enganos, filmada
com uma destreza exemplar, a partir de uma obra para teatro da dramaturga
francesa, conjuntamente com as brilhantes atuações de Kate Winslet, Jodie
Foster, John C. Reilly e Christoph Waltz.
O encontro entre
os dois casais "civilizados" vai se degenerar, partindo para a
"carnificina" do título.
O interesse
encontra-se, portanto, na progressão certeira e inevitável rumo ao caos.
É ótimo ver os
personagens se desenvolvendo aos poucos, deixando cair as máscaras, tanto para
a mulher de esquerda, ideológica (Jodie Foster) quanto para o capitalista
cínico, feroz (Christoph Waltz).
Em uma estrutura
que não larga seus personagens em momento algum, os atores são indispensáveis
- a escolha do elenco foi excelente neste caso. Se Christoph Waltz e Kate
Winslet não têm mais nada a provar para ninguém, há muito tempo não se via
Jodie Foster tão bem em cena, ou John C. Reilly em um papel que fugisse do
homem passivo e pouco inteligente.
A diversão do espectador
encontra-se em sua posição cômoda diante da catástrofe alheia, que
ele pode testemunhar como um voyeur, sem implicação. Em minha opinião, se
o filme faz críticas à burguesia, ele não pretende ser um tratado sobre a
falência dos valores humanos, apenas um cutucão cômico e leve sobre as
hipocrisias sociais. Quando as interações pegam fogo, e as bocas começam a
despejar com a mesma intensidade insultos e simbólicos vômitos, resta o prazer
de ver até onde a “brincadeira” de ser autêntico pode ir.
Em um mundo adulto
tão condicionado por regras sociais, é uma "delícia" ver quatro
pessoas "perfeitamente" educadas rebaixando-se e dizendo em voz alta
aquilo que muitos outros pensam, mas não ousam
falar, por "n" motivos. Um cinema-catarse e uma psicanálise da classe
média-alta na medida certa para a projeção de culpas e desejos escondidos
sob o véu de um moralismo hipócrita que impera em nossa sociedade.
