sábado, 17 de dezembro de 2011

os dragões que REforçam os seus medos.


Quem nunca se sentiu  mal diante de uma situação que lhe despertou uma sensação de medo ou até mesmo pavor? Todos nós temos nossos receios e zonas de insegurança, porém, em alguns momentos ,essas emoções dominam de tal forma que fazem os indivíduos recuar, parcialmente ou completamente, diante de alguma situação. 

Como toda emoção, ao “tentarmos” racionalizar ou somente pontuar alguns aspectos, entramos em âmbitos do subjetivo, do intangível e é exatamente aqui que as coisas começam a sair do controle.

Joseph Campbell, um dos maiores estudiosos de todos os tempos na área de mitologia, faz um comparativo muito interessante entre o significado dos dragões e o medo. Primeiramente, ele descreve a diferença entre um dragão positivo, aquele que na mitologia chinesa traz abundância e vitalidade dos pântanos e o dragão negativo, aquele que está dentro de cada um de nós, limitando nossas ações.

Dessa forma, quando você pensa:
 “Oh... eu não consigo fazer isso ou aquilo”, é o seu dragão que o está bloqueando.

Mas como surge o medo?

Além dos perigos reais, nossos temores podem aparecer por conta das associações que fazemos ao longo da vida. Por exemplo, uma criança, que viu seus pais passarem por uma queda brusca em sua condição financeira, pode desenvolver uma relação extremista para ambos os lados, tornando-se controladora em excesso ou até mesmo desenvolvendo uma ambição capaz de passar pela frente de quem quer que seja para alcançar seus objetivos.

Em um outro formato pode-se simplificar da seguinte forma: através da exibição ou mera suposição de um estímulo central, são disparadas em nosso cérebro mensagens que provocam comportamentos negativos e/ou estagnantes diante deste.

Para encontrarmos uma libertação para essa emoção, é necessário investigar a fundo os reais motivos para o surgimento dos pensamentos que causaram e que reforçam esse medo, porém, quando falamos isso, no consultório, uma das primeiras idéias trazida pelos pacientes é: ” Eu não irei conseguir me libertar desse medo, ele já faz parte de meu ser”. Pensando isso, é como se essas palavras soassem como um eco dentro da mente, apenas com mensagens negativas que não permitem sequer o vislumbrar de uma solução, da mesma forma, querer fórmulas mágicas e resultados imediatos é justamente escolher o caminho mais fácil, que é desistir e dar vazão ao medo. Se pensarmos bem, é mais ou menos como os fantasmas que algumas crianças tem absoluta certeza que estão vendo, o problema é que, nesse caso, muitas das vezes as luzes que devem ser acessas estão cobertas por densas camadas. 

Existem técnicas cognitivas comportamentais de exposição paliativa ao medo que são muito eficazes no seu combate, pois essas, dentre outras funções, se propõem a favorecer a racionalização dessa sensação. Perguntas que favorecem esse trabalho são: “Quais pensamentos estão me condicionando a pensar dessa forma? Houve algum evento marcante que suponho ter sido o responsável pelo início deste medo? Quais são os riscos que realmente corro ao me expor a dada situação?”

Na maioria das vezes, o enfrentamento exige muito esforço, mas algo importante a citar é: procure ser flexível consigo, vá devagar, afinal, essa sensação negativa pode ter sido criada em segundos, mas foi  capaz de se abrigar em locais tão obscuros da mente que só, com muita paciência, coragem e ajuda, poderá ser vencido.

Procure descobrir o que esse medo simboliza para você, qual sua representação, pois, quanto mais o negamos, mais poderoso ele se torna. Encontre formas para explorar e até mesmo desafiar seu medo, descubra o que está por trás dele para aproveitar cada vez mais seu dia.

Segue abaixo um vídeo curto que sintetiza, um pouco, as palavras usadas.



sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Psicossomática vs REdução da medicina.



Vivemos em uma cultura que, há séculos, possui uma forte tendência para encarar o indivíduo em dois âmbitos – mente e corpo. Diante disso, o mais prejudicado é o paciente, já que, ao apresentar-se para diferentes profissionais, sente muitas vezes a clara necessidade de “dividir-se” em vários pedaços para que consiga a atenção e a compreensão que sua problemática exige. Se tivermos uma alergia manifestada em nossa pele devemos procurar um dermatologista, se sofrermos de um problema em nosso sistema digestivo quem devemos buscar é um gastroenterologista e assim podemos seguir. Há anos que se perdeu o olhar para a totalidade do indivíduo.

Talvez esse seja o maior problema das chamadas “especialidades médicas”, pois salvo alguns profissionais de medicina (em número cada vez mais reduzido), são poucos aqueles que se propõem a consultas que não abranjam apenas o trivial para o receituário médico. Parece que só o aparente/sintomático é importante, da mesma forma que, talvez, acompanhemos inconscientemente o “chamado” dos dias atuais. É tudo muito rápido e, como dizem por aí, tempo é dinheiro. A partir disso, as indústrias farmacológicas obtêm lucros estrondosos e as doenças provenientes de raízes emocionais só tendem a crescer cada vez mais.

Para Jung, a finalidade básica, tanto da neurose quanto de qualquer manifestação do inconsciente, seria o de encontrar formas para compensar uma atitude unilateral da consciência, ou seja, como nosso ego muitas vezes não tem condições de integrar alguns materiais reprimidos, esse encontra no corpo uma via para suas manifestações. As ainda misteriosas doenças somáticas seriam o limite imposto frente a um excesso de energia canalizada apenas de um dos lados.

Vejamos um exemplo: pessoas com comportamentos muito hostis frente às situações, envolvidas excessivamente no trabalho, extremamente competitivas, impacientes, formam um grupo de risco para o desenvolvimento de doenças cardíacas, com isso, determinados sintomas apresentam-se como uma maneira exacerbada para propor ao indivíduo alguma revisão ou até mesmo modificações de comportamentos.

Estamos no meio de um círculo vicioso, onde cada agente da cadeia é responsável por nutrir determinado ciclo. Pensa-se: apresento um sintoma; logo, terei que procurar um médico para que me dê formas rápidas para acabar com esse, porém o que não nos damos conta é que, ao fazermos isso, muitas vezes colocamos para debaixo de um tapete imaginário problemáticas que só tendem a aumentar, com o passar do tempo e de nossa alienação para conosco.

Não pretendo, de maneira alguma, apresentar que a psicologia é capaz sozinha de dar conta de todas as manifestações corporais, porém é necessário salientar que nosso corpo não é uma máquina e que, por isso, necessitamos rever e revisitar certas situações para que, como detetives, encontremos as raízes responsáveis pela formação de determinados sintomas.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A primeira sessão - O possível início da REscrita.


Uma palavra para esse post: expectativa.

De ambos os lados, há muito desse ingrediente. Do lado do paciente existe um forte imaginário, favorecido por inúmeras crenças populares e paradigmas. Tais como: Identificarei-me com essa pessoa? Conseguirei abrir minhas particularidades a alguém que sequer conheço? Irei superar rapidamente tal sintoma que tanto me desagrada? Poderei falar tudo o que eu penso e que já fiz ou serei julgado por isso? É realmente necessário procurar esse profissional? Serei capaz de arcar financeiramente e pessoalmente com esse trabalho?

Do nosso lado, apesar do tempo de formação e experiência adquirida ao longo dos anos, parece que sempre existirá a ansiedade frente a esse novo ser que se apresenta. Nós, terapeutas, mesmo fazendo uso da adequada persona (máscara, em grego) de estudantes da mente humana, ainda sim, temos nossas angústias, dúvidas e anseios profissionais. Talvez isso seja favorecido por atuarmos em uma profissão altamente solitária ou apenas por sermos também seres humanos. Independentemente do motivo, da mesma forma que acontece na vida, no processo de análise não sabemos onde este irá chegar, mas é aí que está a grande magia do processo, pois este, diariamente, sessão após sessão irá, se desvelar.

Normalmente pelas neuroses ou alguma outra patologia, nos vemos fechados cada vez mais em nossos mundos e esses, apesar de confusos e doloridos, representam o local mais seguro que se pode estar. Com isso, a possibilidade do processo terapêutico representa o fato desse indivíduo não estar mais só.

Quando por algum motivo algo nos faz parar, permitindo o movimento de encontro com o outro, deixando assim que as palavras falem ou silenciem, percebemos que começamos a transformar algumas energias e criamos assim um ambiente de re-significação e cura.

Tal como acontecia na Idade Média, a Alquimia que dentre outros objetivos, visava à transmutação de alguns metais inferiores em ouro. Nesse encontro vários elementos se misturarão, lidaremos com as polaridades entre alegria-tristeza, amor-ódio, coragem-medo, dúvida-certeza, visão-desilusão e muitos outros. E como a vida não segue um movimento linear e racional que possa ser controlado e planejado, desejos variados ocorrerão e isso é perfeitamente normal, pois o indivíduo sente a necessidade de prever, planejar, organizar, porque seu ego precisa de tudo isso para sentir-se com o controle em suas mãos. Mas o dia-a-dia e todas as vivências podem nos surpreender, pois estamos inseridos em um espaço muito maior do que aqueles que nossos pequeninos olhos conseguem captar.

No laboratório os cientistas, médicos, bioquímicos, e outros se propõem a criar e a re-inventar. Nós, psicólogos, nos propomos muitas vezes a “acelerar” aquilo que a natureza demoraria ou nem chegaria a fazer.

sábado, 5 de novembro de 2011

REflexões sobre os motivos pela busca de terapia.


Se prestássemos mais atenção em vários momentos da vida, seríamos levados a pensar sobre a necessidade de ter com quem dividir alguns dos sentimentos e emoções como forma de trabalhá-los, amadurecê-los ou vencê-los. Certa vez fiz uma pesquisa questionando algumas pessoas o que as levaria procurar pela terapia. Encontrei as mais variáveis respostas, porém duas palavras foram as mais usadas: ajuda e busca.

As respostas mais freqüentes foram aquelas que diziam respeito ao autoconhecimento, auto-estima, auxílio nas tomadas de decisões, mudança de ciclos do desenvolvimento, como adolescência, menopausa, terceira idade, dificuldades em diferentes âmbitos da vida (familiares, profissionais, pessoais), mas apareceram também controle de fobias, estresse pós-traumático e lutos. Chegando a casos mais sérios como transtornos alimentares, de humor, personalidade, dentre outros.

Como podemos ver, os motivos são os mais variados possíveis. Seja qual for sua motivação, o caminho encontrado para o processo terapêutico se dará a partir do encontro entre analista e paciente, sendo determinado a partir de cada caso. Não seria uma colocação errônea afirmar que apesar de seguirmos um sério método de trabalho, sendo fortemente guiados por uma teoria, uma análise apurada se faz necessária por parte do terapeuta frente a cada paciente. Afinal, cada ser humano, apesar de todas as semelhanças, é um ser individual e único. Sendo assim: como poderemos seguir padrões rígidos de uma teoria?

É muito importante que haja uma boa sintonia dentre os dois envolvidos, pois o processo analítico demanda confiança, dedicação, respeito e muito esforço dos dois lados. Somente através dessas variáveis é que esses dois protagonistas não chegarão a conclusões precipitadas, podendo assim encontrar juntos melhores respostas ao promissor desenvolvimento daquilo que cada indivíduo veio potencialmente disposto a ser.

Muitas pessoas chegam a se questionar se não poderiam ser ajudadas em suas buscas por um amigo íntimo, familiar ou qualquer outra pessoa próxima. Porém, ao lidarmos com a mente humana, estaremos expostos a camadas ocultas de nossa personalidade e, com isso, padrões de comportamento conscientes e inconscientes serão revistos, comprometendo a imparcialidade na escuta. Sendo assim, uma conduta profissional se faz necessária. Mesmo porque, muitas vezes, passaram-se anos e anos para a formação de determinado comportamento. Como poderemos pretender que esses sejam re-significados de maneira rápida e corriqueira?

O profissional de Psicologia possui formas criativas para propor aos seus pacientes reflexões sobre possíveis mudanças, reconhecimentos, diferenciações de comportamentos e isso será certamente realizado a partir dessa relação profissional.

Diagnósticos são importantes para nortear alguns entendimentos, porém, o que fará realmente sentido ao processo é a atenção à história individual de cada paciente. A partir disso, a função mais importante do analista é procurar meios para compreender o que se passa com cada pessoa que se apresenta a ele. Sonhos serão analisados, a fim de encontramos significados antes não pensados, além de técnicas para estimular a ampliação da consciência.

Você já se perguntou quantos talentos possui dentro de si sem sequer tomar conhecimento? Quantas vezes após o passar de algum tempo você não se pegou surpreso por alguma conduta? E mais: quantas vezes você julgou-se incapaz de algo que após alguns anos conseguiu realizar? Pois então, o trabalho de reconhecimento envolve tempo e muitas vezes é árduo, porém pode ser por demais gratificante transcender aquilo que um dia fomos levados a crer pelo coletivo ou por nossas crenças sobre aquilo que éramos capazes de fazer ou ser.