Vivemos em uma cultura que, há séculos, possui uma forte tendência para encarar o indivíduo em dois âmbitos – mente e corpo. Diante disso, o mais prejudicado é o paciente, já que, ao apresentar-se para diferentes profissionais, sente muitas vezes a clara necessidade de “dividir-se” em vários pedaços para que consiga a atenção e a compreensão que sua problemática exige. Se tivermos uma alergia manifestada em nossa pele devemos procurar um dermatologista, se sofrermos de um problema em nosso sistema digestivo quem devemos buscar é um gastroenterologista e assim podemos seguir. Há anos que se perdeu o olhar para a totalidade do indivíduo.
Talvez esse seja o maior problema das chamadas “especialidades médicas”, pois salvo alguns profissionais de medicina (em número cada vez mais reduzido), são poucos aqueles que se propõem a consultas que não abranjam apenas o trivial para o receituário médico. Parece que só o aparente/sintomático é importante, da mesma forma que, talvez, acompanhemos inconscientemente o “chamado” dos dias atuais. É tudo muito rápido e, como dizem por aí, tempo é dinheiro. A partir disso, as indústrias farmacológicas obtêm lucros estrondosos e as doenças provenientes de raízes emocionais só tendem a crescer cada vez mais.
Para Jung, a finalidade básica, tanto da neurose quanto de qualquer manifestação do inconsciente, seria o de encontrar formas para compensar uma atitude unilateral da consciência, ou seja, como nosso ego muitas vezes não tem condições de integrar alguns materiais reprimidos, esse encontra no corpo uma via para suas manifestações. As ainda misteriosas doenças somáticas seriam o limite imposto frente a um excesso de energia canalizada apenas de um dos lados.
Vejamos um exemplo: pessoas com comportamentos muito hostis frente às situações, envolvidas excessivamente no trabalho, extremamente competitivas, impacientes, formam um grupo de risco para o desenvolvimento de doenças cardíacas, com isso, determinados sintomas apresentam-se como uma maneira exacerbada para propor ao indivíduo alguma revisão ou até mesmo modificações de comportamentos.
Estamos no meio de um círculo vicioso, onde cada agente da cadeia é responsável por nutrir determinado ciclo. Pensa-se: apresento um sintoma; logo, terei que procurar um médico para que me dê formas rápidas para acabar com esse, porém o que não nos damos conta é que, ao fazermos isso, muitas vezes colocamos para debaixo de um tapete imaginário problemáticas que só tendem a aumentar, com o passar do tempo e de nossa alienação para conosco.
Não pretendo, de maneira alguma, apresentar que a psicologia é capaz sozinha de dar conta de todas as manifestações corporais, porém é necessário salientar que nosso corpo não é uma máquina e que, por isso, necessitamos rever e revisitar certas situações para que, como detetives, encontremos as raízes responsáveis pela formação de determinados sintomas.

