terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
as REvelações do inconsciente.
Na última quinta-feira, fui assistir a um espetáculo multimídia que une em um só espaço: teatro, dança, vídeo, canto, pantomima e projeções de pinturas do Museu de Imagens do Inconsciente. Tratava-se da peça tão aguardada por mim – Nise da Silveira – Senhora das Imagens.
Da mesma forma que, para chegarmos a alma de um paciente, é preciso, antes de tudo, passar pelas turvas águas do inconsciente, somos expostos desde que entramos na sala a gelo seco o que, para mim, simbolizou claramente esse “compartimento” na psique humana.
Para quem não conhece a formidável personalidade daquela que inspira a peça, é possível, através da BRILHANTE atuação de Mariana de Oliveira Infante, ser apresentado a aspectos pessoais e profissionais de Nise - uma das primeiras mulheres a se formar em medicina no nosso país. Em uma época em que mulheres não eram aceitas para quase nada que não fossem assuntos do lar, essa, simplesmente por estar lendo um livro comunista, foi mantida na prisão por quase dois anos. Revolta-se contra os métodos de cura do sistema psiquiátrico (como a lobotomia e eletrochoques) e instaura em um hospital público do RJ um espaço que chamava de "Ilha do Amor", com ateliês de pintura, desenho, modelagem e oficinas de jardinagem e bordado. Desse modo, revolucionou a psiquiatria convencional, possibilitando que seus ‘camafeus’ (como se referia aos pacientes) conseguissem reatar vínculos com a realidade, através de expressões criativas e simbólicas. Contrariando a expressiva maioria, dedicou-se a resgatar o ser humano que existia dentro de cada interno em tratamento.
Como tudo que é feito com amor vai adiante, as peças que eram criadas pelos internos tiveram repercussões mundiais. Os mais importantes museus de arte moderna abriram seus salões para artistas de que nunca se ouvira falar. Muitos críticos assinalaram que essas exposições revelavam pintores que, apesar de desconhecidos, deveriam desde já ser considerados entre os maiores artistas brasileiros do século. E o que mais intrigava é que por trás deste “milagre” não havia nenhuma academia de artes. Apenas uma psiquiatra, ridicularizada por seus colegas. Os artistas eram esquizofrênicos pobres, internados, alguns há várias décadas, abandonados por suas famílias e desenganados pelos médicos.
“A experiência no atelier de pintura do hospital psiquiátrico decerto confirmou o recuo diante da realidade externa vivenciada ameaçadoramente, assim como o medo da realidade interna, talvez ainda mais perigosa”. Declara Nise em um dos seus livros.
“Uma das funções mais poderosas da arte – descoberta da psicologia moderna – é a revelação do inconsciente, e este é tão misterioso no normal como no chamado anormal.” Expôs ao Correio da Manhã o jornalista Mario Pedrosa. Dotado de uma clara percepção esse iniciador da crítica de arte de moderna brasileira, revelou ao jornal aquilo que tanto tememos – a sutil linha existente entre a sanidade e loucura. Não será essa, então, a questão central que norteia a grande repulsa ainda existente na maioria das pessoas quando se deparam com um doente mental? O que nos olhos veem neles que reflete em nós?
Como os formatos em círculos eram frequentemente encontrados nas telas de pintura, Nise começou a suspeitar que aquelas formas, em múltiplas variações e irregularidades, eram na verdade mandalas. Inicia, então, seu contato com o grande psiquiatra e fundador da Psicologia Analítica Carl Gustav Jung, que constantemente acompanhou os trabalhos de alguns internos, apresentando seus feitos como um movimento da mente em função da compensação a situação de caos do consciente.
Em dado momento da peça, Mariana pergunta à platéia sobre sonhos e nos coloca a pensar novamente sobre a questão abordada no parágrafo que antecede ao acima, na medida em que somos levados ao questionar a cerca da diferença entre o sonhar noturno e os diários vividos nas crises da esquizofrenia.
Claramente envolvida, repleta de muita entrega, dedicação e empenho, Mariana dança, canta e encanta. Para mim ficou claro desde o início que essa atuação lhe caiu perfeitamente bem, porém, somente após algumas buscas pude entender que a frase constantemente repetida pelo “inconsciente” na peça: “Vai Mariana! Pega o cajado,legado de seu pai e dá vez à voz do coração..do coração...do coração.”, era por conta de Mariana ser filha de um psiquiatra italiano que manteve relações pessoais e profissionais com Nise, através da luta por uma psiquiatria mais humanitária.
“A peça e a vida de Nise tem uma relação simbólica com a história de vida da Mariana, tinha que ser ela. Foi um conjunto de coincidências”, declarou o diretor Daniel Lobo a uma revista, acrescentando o fato de a atriz ter nascido em 31 de outubro, portanto, Dia das Bruxas, e o dia do falecimento da renomada psiquiatra.
E, entre as suas coincidências, a frase final de um arquétipo da atriz com a máscara da bruxa, integrada ao espetáculo: “Quando se morre, se abandona tudo o que existe. A rua que se conhece e aquela que não se conhece. Tudo o que se possui e o que não se possui, só assim podemos renascer em vida. Nascer transformando e sendo transformados.”
A peça que está em cartaz no teatro Eva Herz, dentro da Livraria Cultura em SP segue até o final de Março. Recomendado a todos que buscam deleites aos olhos e ao coração.
E como diria Nise: “Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata.”
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